REPORTAGEM

O Sistema S

“Sistema S” é a denominação que se refere ao conjunto de instituições (Sesi, Sesc, Senac, Senai, Sebrae, entre outras, todas iniciadas com a letra S - daí a origem do nome) que recebem recursos da tributação de empresas de diversos setores e, assim, prestam serviços de educação, além de assistência social, cultura, lazer e treinamento profissional para a sociedade brasileira.

A principal fonte de recursos do sistema vem de contribuições obrigatórias das empresas – a partir de alíquotas recolhidas na folha de pagamento de seus funcionários. O Sesi (Serviço Social da Indústria), por exemplo, recebe 1,5% do total da folha de pagamento das indústrias, transferidos mensalmente para que a instituição possa desenvolver programas de capacitação profissional e pessoal para os cidadãos de todo o país. O valor é arrecadado pelo Instituto Nacional do Seguro Social, o INSS, que desconta parte desse dinheiro para custear as despesas operacionais da transação. 

Já o Sesc (Serviço Social do Comércio) é representado pela Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC) e opera de forma semelhante, recebendo também 1,5% dos impostos. 

Sesi e Sesc são os dois centros do sistema S que atuam não somente na formação de mão de obra para alunos mais velhos, mas também na educação básica, ensino fundamental e médio.

A natureza jurídica das instituições do Sistema S é de entidade privada, embora seus recursos venham de contribuição compulsória de pessoas físicas ao governo. Por isso, são rotuladas como paraestatais. O Sistema vem sendo alvo de polêmicas envolvendo os defensores de um posicionamento econômico liberal e ainda denúncias de corrupção.

Um exemplo de sucesso no Sistema S

Mas, à parte de todas as polêmicas, evidências mostram que o ensino praticado pelo Sistema S em diversas instituições têm um nível muito acima da média. Foi isso o que a Escola Sesc de Ensino Médio, em Jacarepaguá, no Rio de Janeiro (RJ), mostrou em 2019. A instituição superou a média mundial, chegando a ultrapassar as marcas de países que são referências mundiais em educação, como Finlândia, Japão, Canadá e os Estados Unidos - no PISA (Programa Internacional de Avaliação de Estudantes), desenvolvido pela Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico, a renomada OCDE.

46 escolas brasileiras - selecionadas pela OCDE por amostragem - foram avaliadas, representando ao todo seis estados nacionais (CE, MG, PE, RS, RJ e SP). Das instituições enviadas, 33 eram públicas e 13 particulares. Enquanto a média de pontuação geral no campo da “Leitura” foi de 493 pontos, a unidade do Sesc de Jacarepaguá atingiu 557,8, quando a média no Brasil foi de 407 pontos. A “Matemática” também foi destaque: 546,8 pontos, muito acima da média brasileira de 377, contra 490 de média mundial. Em “Ciências”, a Escola Sesc alcançou 552,6 pontos, acima da média mundial (493) e da nacional (401).

Inaugurada em 2008 e oferecendo ensino de qualidade, em horário integral e mensalidade gratuita, a escola tenta explicar o tamanho destaque e a notoriedade que passou a ter desde o PISA. 

A escola atende alunos de todos os estados do país em seu campus com mais de 130 mil metros quadrados. Atua como escola-residência, carinhosamente chamada de “cidade educadora”, por reunir elementos que permitem uma vivência integral do campus. A estrutura inclui espaços culturais, teatro, biblioteca, oficinas de arte, complexo esportivo com piscina semiolímpica, sala de ginástica, musculação, laboratórios, restaurante e vilas residenciais para estudantes e professores.

Baseada em uma metodologia pedagógica ativa, a aprendizagem é centrada no projeto de vida do aluno. Professores tutores acompanham individualmente o estudante na construção desse projeto e na realização de etapas, além de tutoria de apoio para o desempenho acadêmico e desenvolvimento de habilidades socioemocionais.

Para saber mais sobre o Sesc

Com atuação nas áreas de cultura, lazer e assistência, o Sesc (Serviço Social do Comércio) realiza ações em educação no Brasil desde 1947, contemplando desde a alfabetização até cursos de atualização profissional. A educação básica é ofertada no ensino infantil, fundamental e médio nas 213 unidades espalhadas pelo Brasil, com mais de 70 mil estudantes, excluindo o Estado de São Paulo, que optou pela educação não formal nos espaços de cultura e lazer do Sesc durante o contraturno das aulas.

A cultura está fortemente presente na proposta pedagógica em todos os ciclos educacionais, como explica Cynthia Rodrigues, educadora e gerente de educação do Departamento Nacional do Sesc. 

 “Acreditamos que não existe educação sem cultura e o Sesc tem a grande riqueza de poder trabalhar isso dentro de suas unidades. A interação entre cultura e educação só enriquece e valoriza o trabalho”.

Os alunos são estimulados a criar com base em práticas pedagógicas que inserem a contação de histórias, leitura, dança, pintura e outras expressões artísticas. Jardinagem, horticultura e passeios culturais também fazem parte da rotina. Nas escolas localizadas dentro dos Centros de Atividades, a proximidade intensifica ainda mais a integração e a participação dos alunos nas ações realizadas no campo das artes, cultura, esportes, lazer e saúde, sempre permeadas pelo caráter educativo. Shows com nomes representativos da cena musical nacional e internacional, espetáculos de teatro, performances e festivais dos mais variados tipos reforçam o eclético repertório.

A oferta do ensino em cada escola visa responder às diferentes realidades e demandas locais. “Cada local tem muita relação com a história daquela unidade, por isso não pretendemos ampliar em número e ser uma rede muito grande. Entendemos que a proposta é expandir o atendimento para o segmento seguinte: se oferece apenas o ensino infantil, pode ter ampliação para o fundamental e assim sucessivamente”, explica Cynthia.

O ensino fundamental foi implantado, inicialmente, nos estados do Amazonas e no Mato Grosso, em 1995 e 1997, respectivamente. A expansão para os demais estados começou em 2000 como resposta à grande demanda da clientela de educação infantil. Já o ensino médio é ofertado em dez unidades.

Segundo Cynthia, as mensalidades são de baixo-custo e variam por levar em conta o perfil socioeconômico de cada região (na pré-escola a mensalidade pode variar de R$ 90 a R$ 240, por exemplo), sendo que, em alguns lugares, o ensino é totalmente gratuito, além da política de bolsas de estudo parcial e integral.

“Acreditamos que o mais importante é dar acesso às pessoas. Mesmo tendo como público preferencial os comerciários com renda de até três salários mínimos, as vagas são disponibilizadas para todos”.

O SESC em números

(dados de 28/05/2020)
70.032
298.288
20.110
32.335
3.030
14.557
matriculados, dos quais:
 foi o total de inscrições em cursos de educação complementar, educação em ciências e humanidade e cursos de valorização pessoal

na Educação Infantil
na Educação Fundamental
no Ensino Médio
na Educação de Jovens
e Adultos (EJA)
Fonte: Sistema de Gestão da Produção - Sesc

A Rede Sesi

O Sesi (Serviço Social da Indústria) surgiu no Brasil em 1946 como uma rede de educação voltada para o mercado de trabalho e o desenvolvimento industrial. Com abrangência nacional, reúne mais de 500 escolas de educação básica e formação continuada para os trabalhadores da indústria e seus dependentes em todos os Estados do país.

As metodologias e currículos têm foco nas ciências aplicadas, matemática, proficiência em português e desenvolvimento de competências para o trabalho. Diferentes disciplinas são articuladas em uma mesma proposta para promover o ensino interdisciplinar. Os alunos contam com material didático elaborado pelos profissionais da rede, unidades equipadas com laboratórios de informática, física, química e biologia, sistema integrado de bibliotecas, salas multiuso, refeitório e quadras poliesportivas. Teatros e espaços culturais do Sesi complementam as atividades.

O Sesi-SP

O Estado de São Paulo possui a maior quantidade de escolas Sesi. São 144 unidades (ensino infantil, fundamental e médio), distribuídas por 112 municípios paulistas, para atender quase 100 mil estudantes. O ensino de tempo integral está disponível para as crianças do 1º ao 5º ano. No Ensino Médio, os estudantes podem optar por cursos técnicos profissionalizantes nas unidades do Senai-SP, com mais de 1.500 opções. Juntos, Sesi e Senai somam 1,2 milhões de matrículas.

Segundo a Superintendência do Sesi-SP, um dos destaques da entidade é a parceria com comunidades locais, transferindo a escolas municipais a metodologia Sesi, com equipe de profissionais à disposição para formação pedagógica e de gestão, com foco na melhoria dos resultados em desenvolvimento educacional. “O Sesi-SP tem em seu DNA a determinação, a constante busca pela excelência e o forte anseio de sempre contribuir com a formação de uma sociedade produtiva. Por esse motivo, é formado por gente, para gente e movido pelo desejo de melhorar as realidades, promovendo a inclusão social e o desenvolvimento humano.

Aposta em inovação

Unidades do Sesi em Curitiba, Londrina e Cascavel (PR) foram certificadas pela Microsoft como as escolas internacionais mais inovadoras do país. O selo Showcase Schools é conferido às unidades que utilizam ferramentas da Microsoft para educação com metodologias diferenciadas de aprendizagem. 

Outro ponto de inovação é o Espaço Maker. Decoração moderna e experimentação em equipamentos tecnológicos são aliados para cativar o espírito inventivo dos alunos. Destaque também para o programa de robótica que mobiliza equipes de alunos em torneios pelo Brasil e representações em eventos internacionais.

O SESI em números

218.952
298.288
7.862
110.782
53.743
45.308
matriculados, dos quais:
 foi o total de inscrições em cursos de educação complementar, educação em ciências e humanidade e cursos de valorização pessoal

na Educação Infantil
na Educação Fundamental
no Ensino Médio
na Educação de Jovens
e Adultos (EJA)
Dados obtidos do Cadastro Nacional

Sistema S concorre com a rede privada? O que diz a FENEP

“A gente tem uma crítica importante, pois eles são concorrentes das escolas privadas, mas não poderiam ser, pois funcionam em cima do imposto sobre a folha de pagamento. Ou seja, as escolas privadas pagam para o Sistema S também. A função do Sistema S deveria ter foco somente na formação de mão de obra, não em escolas regulares de ensino fundamental e médio. Existem muitas denúncias, ações, contra isso. Se essas instituições usam dinheiro de imposto não poderiam cobrar mensalidades, como acontece, deveria ser de forma gratuita. Fora isso não há treinamento para que essas escolas funcionem. Quem participa do sistema S é o comércio, a indústria, não as escolas. Nós acabamos pagando para que eles façam concorrência com a gente,” diz Ademar Batista Pereira, presidente da Fenep, Federação Nacional das Escolas Particulares.

O presidente da Fenep diz que o ideal seria parar de tributar a folha de pagamento para o Sistema S, como acontece desde os anos 40. “A tributação da folha sai do salário das pessoas. O Sistema S não investiu onde deveria, em fazer treinamento, capacitação, ... As pessoas são enganadas pois olham uma escola bonita, com um preço relativamente baixo. Claro, elas não pagam impostos. Não podemos continuar a financiar prédios de mármore.”

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