ENTREVISTA COM PILAR LACERDA

Como fazer uma escola nova?

Quem é Pilar Lacerda?

Não há como negar que a chegada de uma pandemia abalou o sistema de aprendizado tal qual o conhecíamos até então. A tecnologia, antes controversa – ora amada, ora odiada -, passou a ser indispensável do dia para a noite e o ambiente virtual virou a única forma de manter a educação possível. Mas, passados alguns meses desde essa experiência digital, quais foram os aprendizados que ficarão? E quais os desafios de sempre, que precisam ser repensados para uma escola mais eficiente e inclusiva?

Para discutir essas e outras questões, o Escolas Exponenciais foi conversar com uma das maiores autoridades no assunto: Pilar Lacerda, ex-Secretária de Educação Básica do Ministério da Educação (2007 a 2012) e atualmente diretora da Fundação SM Brasil, instituição cuja missão é contribuir para o desenvolvimento integral das pessoas por meio da Educação, trabalhando para o fortalecimento da educação pública, de forma colaborativa, com os governos municipais, estaduais e federal, organismos internacionais, organizações da sociedade civil, institutos e fundações.

Nesta entrevista, ela fala sobre os desafios impostos pela pandemia na educação, as tendências no ambiente escolar , as possibilidades do EAD, o sistema híbrido de ensino e o que professores e gestores não podem perder de vista, dentro ou fora da pandemia. Mas, em meio a tantas reflexões, uma certeza se destaca – e coloca pais, professores, gestores e alunos para pensar: “Temos que repensar aquele formato antigo da escola. A hora agora é de fazer uma escola nova, com todos esses aprendizados que colhemos durante a pandemia. Quando a gente começa a trabalhar com espaços e tempos mais flexíveis, a gente avança na concepção de educação”, avalia.

Escolas Exponenciais: O que mudou de mais relevante, a seu ver,  na educação, com a chegada da crise do Covid-19?

Pilar Lacerda: Essa pandemia desnudou muitas fragilidades da educação nos países pobres, e o Brasil é um deles, pois não se trata apenas aprendizagem. Com a suspensão das aulas, muitas crianças ficaram sem ter o que comer, pois só se alimentavam no horário que estavam na escola. Fala-se em EAD, mas precisamos lembrar que mais de 2 milhões de lares no Brasil não tem acesso à internet. Outros possuem conexão, mas não existe um equipamento exclusivo para uso da criança. O ensino híbrido tem possibilidade sim de funcionar no Brasil, tanto na rede pública quanto na privada. Esse modelo de ensino não representa exclusivamente o uso de tecnologias, mas sim atividades que serão parte presenciais e parte à distância. Então, se a escola conhece bem os seus estudantes, ela sabe quais as condições de cada um para organizar e planejar o ensino híbrido coerente com as necessidades deste grupo de alunos.

EX: Você afirma que “a escola é o lugar em que entendemos O mundo e nos entendemos no mundo”. Você acha que o papel da escola continua o mesmo? Se não, o que mudou?

PL: Eu imagino que lindo seria termos jovens que refletem, explicam, argumentam sobre o mundo em que vivem. Entender o mundo passa pelo conhecimento da História, da Geografia, pela capacidade de leitura e interpretação, pelo conhecimento das mudanças climáticas, por conhecer o progresso de pesquisas científicas, enfim, quando o conhecimento faz sentido, ele contribui para que o estudante possa explicar seu contexto, propor soluções e intervir na realidade de maneira criativa e transformadora. A curiosidade e o erro são fundamentais para esta formação. O papel da escola não continua o mesmo, porque ela ainda não forma jovens que entendem o mundo e se entendem no mundo. A educação básica contemporânea tem que se perguntar se cada atividade, cada leitura, colabora para que aqueles adolescentes entendam seu mundo, seu lugar no mundo e como pode, ativamente, melhorá-lo.

EX: Às vezes parece que há um abismo entre o que é ensinado nas escolas e o que é preciso saber tanto para ser bem sucedido no mercado de trabalho, como para viver bem em um mundo contemporâneo e "líquido". Como diminuir essa distância?

PL: É uma distância que também existe entre a vida lá fora e a vida na escola. Durante muitas décadas, os conteúdos ensinados nas escolas eram justificados por eles próprios. A velha pergunta: “Professora, pra que estou estudando isso?” era respondida: “porque está no livro” ou “porque vai cair na prova. Cai no vestibular. Porque você precisa isto.” A escola conservadora e antiga se organiza (ainda hoje) a partir dos conteúdos e não a partir dos seus estudantes e da comunidade escolar. No século XX, com 45/50 alunos dentro da sala de aula, os docentes sequer sabiam os nomes e histórias de cada estudante que estava ali. O “bom” professor era aquele que “dava todo o livro didático”. Aliás, a concepção de currículo era seguir o índice do livro didático. Esta concepção provoca um distanciamento entre a vida lá fora e o saber escolar, que acaba servindo apenas para a escola e seus testes. Por isto, o diálogo entre educação básica, universidades, empresas, movimentos culturais e sociais, deve ser uma constante.

EX: Quais são as grandes tendências na educação brasileira para os próximos 20 ou  30 anos?

PL: As grandes tendências na educação básica contemporânea já são realidade em alguns países ou mesmo escolas brasileiras. A flexibilização curricular; aprendizagem colaborativa; conscientização e inclusão; uso intenso de ferramentas digitais; universo maker – mãos na massa - (robótica, por exemplo) sendo utilizados no dia a dia da escola; protagonismo dos estudantes; diálogo e escuta na comunidade escolar; avaliação do processo e não do momento. O que nunca pode sair dos projetos pedagógicos: alfabetização e letramento; leitura como a ferramenta mais importante para uma aprendizagem consistente; o professor e professora como mentores da aprendizagem.

EX: Quais são as principais competências que um professor, hoje, não pode deixar de ter? E um gestor escolar?

Algumas competências são sempre necessárias: liderança, pensamento crítico, formação e atualização permanentes (aprender ao longo da vida), empatia.

Acrescidas de:  saber trabalhar em grupo e no coletivo, boa comunicação, criatividade, capacidade de lidar com as tecnologias digitais, curadoria de conteúdos, capacidade de inovação. O gestor deve exercitar a capacidade de escutar, de respeitar posições diferentes, estar aberto ao diálogo com toda comunidade escolar, respeitar o contraditório, além das mesmas competências dos mestres e mestras.

EX: O que podemos aprender com os modelos educacionais internacionais? Quais seriam aplicáveis à realidade brasileira?

PL: Devemos sempre nos inspirar em diferentes experiências internacionais, não só dos países mais ricos. É importante estar atento e ligado às experiências inovadoras que estão acontecendo na educação mundial. Mas não adianta ‘importar” modelos ou tentar aplica-los à realidade brasileira como um pacote fechado ou o que chamamos de “produto de prateleira”. A Finlândia, exemplo hoje de uma educação contemporânea e antenada com o século XXI, está diminuindo a carga horária diária nas escolas, para 4 horas/dia. Ao passo que no Brasil “ainda” temos apenas 4 horas diárias de atividades escolares por dia (no mínimo). E sabemos da importância em aumentar o tempo de permanência das crianças e jovens brasileiros na escola. De todas as formas, podemos aprender com as ideias finlandesas de protagonismo estudantil, currículo totalmente voltado ao mundo maker (mesmo antes que isto se tornasse “moda”), bilinguismo, desenvolvimento de projetos, tudo isto pode nos inspirar. A experiência cubana de desenhar um currículo para o Fundamental 2 (secundário obrigatório lá, que atende adolescentes entre 11 e 14 anos), unidocente e totalmente integrado, é também fonte de inspiração. Entretanto, trazer estes modelos prontos para cá não vai funcionar. Por isto, a elaboração de políticas educacionais deve ser feita a partir de estudos e pesquisas acadêmicas e conhecimento profundo de experiências e projetos que estão garantindo aprendizagem para todos, em diferentes contextos.

EX: Qual o papel da família e da comunidade no processo educacional da criança?

A comunidade - e as famílias inseridas - nela não pode ser chamada apenas para escutar relatórios. Ela tem de ser parte da escola, porque ela traz a realidade dos alunos para dentro da escola e isto afeta seu projeto pedagógico. Porque é preciso toda uma aldeia para educar uma criança.

PL: De acordo com um artigo que escrevi para a Virada da Educação, em 2017, “Resistir aos muros das escolas é entender que o território é formador, que as ruas têm histórias, as casas têm vida e todos têm profundas raízes que se entrelaçam lá no fundo das raízes da escola. Mas estas raízes comuns não conseguem brotar, gerar folhas e frutos, porque elas são cimentadas pela cultura opressiva dos muros. Imaginem uma escola que fica na comunidade como uma praça, aberta, integrada na paisagem daquele lugar, daquela terra. Existem culturas, casos, músicas, histórias, músicas, poemas, artistas, que conhecem os alunos e os viram crescer. Quando eles entram na escola e aqueles portões se fecham e se trancam, uma parte da história de cada um fica lá fora. Os estudantes não se reconhecem naquele lugar que fica tão perto da casa deles, em um ambiente que muitas vezes têm ritmos e falas estranhos e dissonantes aos ritmos e falas que os estudantes trazem.”

EX: Qual você acha que será o maior legado que a experiência dessa crise vai deixar para a educação?

PL: Temos que repensar aquele formato antigo da escola. A hora agora é de fazer uma escola nova, com todos esses aprendizados que colhemos durante a pandemia. As turmas terão que ter menos alunos, os espaços da escola e do seu entorno, o bairro, deverão ser incorporados às atividades. Quando a gente começa a trabalhar com espaços e tempos mais flexíveis, a gente avança na concepção de educação, tira a escola das grades de horários e passa a pensar, por exemplo, que a pracinha pode ser o local para oficinas de botânica para 10 estudantes, enquanto outros 10 estão em sala de aula e outros 10 fazendo uma atividade na quadra.

Os professores precisam de novas formações, para entenderem novas formas de avaliação, porque não será possível avaliar crianças da mesma maneira, com a mesma prova e, a escola vai ter que repensar seu papel no mundo, porque é um corte abrupto mas necessário, daquela escola muito fechada e muito gradeada por currículos, e notas de zero a dez. Quando os estudantes voltarem, o  acolhimento será a palavra chave,  a  escuta do que cada um passou, de como cada um viveu essa quarentena, porque esta volta não é o retorno de um período de greve ou de férias, é a volta de uma pandemia, onde mais de 150 mil brasileiros morreram e muitos dos nossos estudantes e profissionais da educação terão sido afetados pelo luto, pela solidão, por violências diversas, pela fome.

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